eu sou uma barata
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tentativa de diário

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Ela já listou três nomes, apesar de toda a pressão: Mariana (roubado de uma grande amiga da mãe), Adélia e Sara (ambas personagens de uma série de desenhos animados que costumava acompanhar). Foi muito difícil, no entanto, livrar-se de uma lembrança nos momentos em que se dedicou, de fato, a pensar – entre uma xícara de café e outra na salinha ao lado do elevador, ou quando os companheiros de redação se aquietaram, nos minutos suaves seguidos ao fechamento da edição de amanhã. A lembrança data de algum dia frio do ano de 1992. Ela sabe o ano exato porque seu irmão havia nascido há poucos dias, e a imagem dele deitado no carrinho amarelo no canto da cozinha continua bastante real. A família desfez-se do carrinho, que havia sido dela antes de ser do irmão, ainda naquele ano, trocando-o por outro mais moderno, com freios. A lembrança: o copo se movendo pela mesa da cozinha na direção das letras organizadas em círculo. Ao redor da mesa, sua mãe, sua tia (morta em 1998), uma prima mais velha. A prima vira-se para ela – “quer perguntar algo ao copo?”. “Não é perigoso?”. “Não, é um espírito do bem, não viu quando perguntamos?”. Ela hesita, mas não mais que um segundo. “Queria saber se vou ter filhos e quantos”. O copo responde dando os nomes das crianças no prelo: Karina, Marcelo, Ana Elisa. Ela não consegue livrar-se destes nomes. A lembrança é uma pequena maldição. Ela sabe que não gosta de Karina e de Ana Elisa. Talvez goste apenas de Ana. Mas não vai colocar Ana na lista, apesar de não parecer correto desafiar o copo, que deu a ela o futuro, que garantiu que ela viveria para ver ao menos três filhos. Ela passa a mão na barriga, abre de leve os botões. Já se pode ver uma estria, o que não a deixa triste. Tem quase certeza de que ele vai gostar mais de Adélia. Pronuncia. Ao longo do dia, o nome vai ganhando força.


posted by MARCO DUTRA 18:18
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